quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Breve retrospectiva pessoal de 2011

Chegando ao fim de mais um ano, é hora de puxar pela memória e relembrar o que mais me marcou nestes últimos 12 meses (acreditando que nada muito significativo venha a ocorrer nas próximas semanas). E sugerir aos amigos que façam suas próprias retrospectivas, certamente bem mais interessantes do que as que veremos na TV nos próximos dias.

Melhor música: Empate técnico entre Rumour Has It, da Adele, e Sinhá, do Chico com o João Bosco (que, convenhamos, não é uma parceria, mas sim uma covardia).

Melhor álbum: Wynton Marsalis & Eric Clapton Plays The Blues. Por reunir dois dos meus músicos preferidos celebrando o meu gênero musical preferido, reafirmando-o como tal. No link dá pra ouvir tudo.

Melhor filme: O drama Minhas Mães e Meu Pai, que embora seja de 2010, concorreu ao Oscar este ano, e foi mais ou menos nessa época que eu assisti.

Melhor livro: Rum: Diário de um Jornalista Bêbado, do Hunter S. Thompson. Sensacional, li em dois dias, coisa rara de acontecer.

Melhor show: Não fui a muitos neste ano, é verdade, mas sem dúvida o Chico, no último dia 29, foi histórico (e caro, por isso tenho que escolhê-lo). Destaque absoluto pro arranjo de Geni e o Zepelin, como mostra o vídeo gravado neste dia (mas não por mim).

Melhor crônica: Essa da Eliane Brum no site da Época : Meu filho, você não merece nada

Melhor dia: 3/11, quando eu finalmente passei na prova prática da auto-escola e fui reconhecido pelo Detran como um legítimo condutor de veículos automotores(pode parecer banal, mas foram uns seis meses de espera entre burocracias, provas mal-sucedidas, demissões de examinadores, etc, e o que é mais enlouquecedor: com o carro comprado!).

domingo, 4 de dezembro de 2011

Vida: Mata-mata ou pontos corridos?

Tomo emprestado do futebol a metáfora que pode ajudar a entender como avaliamos nossa safisfação com a existência: Sua vida, amigo leitor, é vivida em mata-mata ou pontos corridos?

São estas as duas principais formas de disputa dos torneios futebolísticos. A primeira é eliminatória, como a Copa do Brasil, aquela em que uma equipe elimina a outra em confronto direto, até a partida final, que consagra o campeão. Na outra, todas as equipes se enfrentam, e vence quem soma mais pontos no final. Como o Campeonato Brasileiro.

O mata-mata mantém suspensas as comemorações pelas pequenas vitórias,uma vez que só o triunfo final dará sentido a estes suados triunfos. A euforia de uma vitória em quartas-de-final pode ser reduzida a pó se no domingo seguinte o time perder nas semifinais. Um jogo ruim, um dia de azar, acaba com toda uma campanha que se desenhava exitosa.

Nos pontos corridos, os três pontos da partida final têm a mesma importância daqueles disputados no jogo de estreia na competição e de todos os outros. O que torna todos os jogos decisivos, ainda que nenhum seja eliminatório. É permitido tropeçar, desde que se reequilibre antes do tombo para seguir em frente.

Aplicando tais regras ao nosso cotidiano, considero que vive sob as regras do mata-mata aquele que deixa de saborear as pequenas conquistas da vida, pois não vê sentido em comemorar vitórias tão frágeis, que podem desaparecer ao primeiro tropeço logo adiante. Tudo são projeções para um futuro que possa dar sentido ao presente, e só no final irá descobrir - ou decidir - se foi feliz ou não.

O sujeito adepto dos pontos corridos, por sua vez, sabe que a felicidade é feita de alegrias efêmeras e fugidias, com fim unicamente em si mesmas, e independem de um futuro glorioso. Por saber viver o presente, comemora o dia em que tudo o que obteve foi a condição de ter uma noite tranquila de sono. E seus dias ruins jamais irão anular a lembrança dos dias bons que se passaram.

Dadas as opções, reitero a pergunta: que fórmula você escolheu? Viver à espera do resultado final, para avaliar se a vida deu certo ou errado, ou colher do presente, a cada dia, um pouco da felicidade que se pode ter?

domingo, 27 de novembro de 2011

Morar sozinho

Nestes pouco mais de três anos como habitante único dos endereços por onde passei, descobri algumas coisas sobre esta valorosa arte de morar sozinho.

A principal delas, acredito, é que morar sozinho é como ser o único ator em um espetáculo repleto dos mais diversos personagens do cotidiano. E mesmo tendo que se virar para representar a todos, ser ainda sua própria platéia.

Mais do que tentar ser um pouco cozinheiro, diarista, eletricista e encanador, é ser seu próprio psicólogo, quando você está deprimido e não encontra saídas para uma vida feliz.

É ser seu próprio enfermeiro, quando a doença atinge o corpo e é preciso controlar o repouso, preparar a canja, tomar os remédios com seus devidos intervalos de tempo.

É ser sua própria mãe, para reclamar dos horários, mandar dormir um pouco mais cedo, sugerir as contenções de despesas.

É também tentar ser seu amigo, tanto o que te faz rir, quando sentir que falta um pouco de diversão, quanto o que te convence a sair de casa em uma noite preguiçosa.

Morar sozinho pode ser a melhor escolha de sua vida. Da minha, acredito que tenha sido. Mas ao mesmo tempo em que nos oferece certa independência das regras familiares, nos torna ainda mais dependentes de nós mesmos.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Traumas musicais

Há uma triste verdade sobre as músicas que gostamos. Por mais que a gente queira, elas jamais servirão para funções nobres como as de despertador e toque de celular.

Já faz algum tempo que insisto em ser acordado por músicas legais e empolgantes, acreditando que isso possa tornar menos árduo esse momento crítico do dia. Mas não só isso não funciona, como recentemente precisei remover Give it away, do Red Hot Chili Peppers, da minha playlist por puro trauma.

Acostumei então a escolher um som de alarme sabendo que logo terei de dizer adeus, como em qualquer relação desgastada. É uma escolha difícil. Hoje acordo com Purple Haze, do Jimi Hendrix, sabendo que logo ela se tornará antipática, bem como aquelas que nos lembram amores mal-resolvidos.

Com toques de celular as experiências são ainda piores. Talvez por eu não apreciar receber ligações em geral, o som do toque me remete ao chefe que liga durante a folga, ao amigo que me chama empolgado em um dia preguiçoso, às inevitáveis e imprevisíveis más notícias da vida. E foi por isso que nos últimos tempos excluí de minhas listas Fly Away, do Lenny Kravitz, Higher Ground, do Stevie Wonder (com dor no coração), e Night Time is The Right Time, do Ray Charles (e da minha formatura), entre outras que no início até me faziam deixar o celular tocando por um tempo maior que o necessário.

Acredito que na época dos toques polifônicos ocorresse o contrário. Ouvir aquela singela simulação de uma música que gostássemos dava vontade de ouvir o som verdadeiro. Escolhemos músicas para despertador e toque sabendo que logo nos deixarão traumatizados, como as que ouvimos diariamente na abertura da novela.

É verdade que, apesar dos pesares, não abri mão ainda de tornar musicais estes momentos do dia-a-dia. Se hoje o leitor me ligar, atenderei ouvindo We’re Gonna Groove, do Led Zeppelin. Mas dificilmente ouvirás esta bela música em uma festa na minha casa em um futuro próximo.

domingo, 6 de novembro de 2011

Vocês que bebem pra esquecer

Admiro com certa inveja todos vocês que bebem pra esquecer. Pelo mesmo motivo que invejo os bons tocadores de harmônica: por simplesmente não dominar a arte.

Ainda que sem poder oferecer qualquer explicação convincente, sempre que tenho mágoas a afogar, opto por permanecer sóbrio, para absorver toda a melancolia ao invés de despejá-la por aí.

Da mesma forma que não sou um bom conselheiro para os amigos que por ventura precisem ser aconselhados, sou fraco para receber conselhos. Desabafo comigo mesmo e sou o meu pior juiz.

Admiro e invejo quem recebe uma má notícia e vê nela antes de tudo um motivo para encher a cara à noite.

Às intempéries da vida, reajo com não recomendável preguiça existencial. E sou da turma que até para beber uma cerveja precisa de um pouco de motivação.

Sou anti-social nas más horas. Por algum motivo, sinto que um grande problema tira o direito de me sentir bem. Expurgo os fantasmas com doses fortes de reclusão, café e um pouco de blues. E mesmo do prazer das palavras, lidas ou escritas, preciso me distanciar.

Se você enche a cara para esquecer, não importando se esquece de fato ou não, saiba que o admiro e invejo profundamente.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A era do ser banalizado

Nem sempre foi assim, mas em algum momento todos ficamos acostumados a ter nossos amigos e conhecidos disponíveis a qualquer momento, nestes sistemas de troca de mensagens instantâneas pela internet, como MSN e os chats do Gmail e do Facebook, por exemplo.

A toda hora, nas redes sociais, mantemos nossos amigos atualizados sobre nossa rotina e acompanhamos os pormenores do que se passa na vida deles. Estamos por dentro de tudo, desde suas mais profundas crises existenciais até a hora da consulta no dentista.

Acredito que um efeito colateral da comunicação pelas redes sociais, ou mesmo pelo Messenger, seja uma certa banalização de nós mesmos. Não ficarão nossos amigos enjoados de nós, que estamos o tempo todo diante de seus olhos, representados pelo nosso simpático e sorridente avatar, que passa o dia invadindo telas?

Quando passamos manhã, tarde e noite conectados, estamos nos colocando à disposição em tempo integral, logo dando motivos para não sermos procurados. E narrar nossa rotina no Facebook ou no Twitter pode fazer de nós pessoas aparentemente maçantes e cansativas.

Há algum tempo reparei que tenho sentido mais saudade de pessoas que normalmente não me fariam tanta falta, pelo simples motivo de que raramente tenho contato virtual com elas. Creio que só a superexposição nas timelines alheias pode fazer com que pessoas legais se tornem mais superficiais do que outras nem tão interessantes, porém menos assíduas no cotidiano virtual.

Como há alguns anos, quando a moda era dar toque no celular. Recebíamos toques e achávamos isso legal, pois alguém lembrara de nós. Mas se passávamos a receber esses toques repetidas vezes, da mesma pessoa, cedo ou tarde acabava o encanto, e então reclamaríamos do pé no saco que não tinha mais o que fazer. Só é legal até banalizar. E nossa atual onipresença na rede banaliza tudo.

Desde o Orkut, em 2004, que sou um entusiasta das redes sociais. Mas tento usá-las com moderação, mesmo quando a vontade é de sair falando o que dá na telha. Pois em que mundo não virtual nós seríamos capazes de suportar a fala de nossos conhecidos sem nenhum intervalo que não seja o do sono obrigatório?

Finalmente, deixo aqui a dúvida. Será que estamos deixando de ser pessoas legais e nos tornando chatos descartáveis, sempre disponíveis para o papo e que tudo contam a quem queira ou não saber?

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Barrados no avião

Matéria deste blogueiro publicada no Pioneiro de quarta-feira (19), e na Zero Hora de quinta-feira (20)

A expectativa de um passeio ao Nordeste se transformou em uma grande dor de cabeça para uma família de Bento Gonçalves. Tudo porque, uma semana antes do embarque, a companhia aérea impediu que a filha de três anos do comerciante Volnei Pertile e de sua esposa, Eliane, embarcasse junto com eles e seus outros dois filhos para Porto Seguro (BA).

A pequena Maria Luísa é portadora de paralisia cerebral, causada por um acidente de trânsito quando ela tinha apenas sete meses de idade. Para que pudesse levá-la à viagem, a família obteve um laudo médico, exigido pela companhia, atestando que a menina estava apta a embarcar.

O documento foi aceito, mas a surpresa veio na última sexta feira (14), quando um e-mail enviado pela Gol Linhas Aéreas retificava a posição anterior, afirmando que o caso fora reavaliado por uma junta médica, e que, por questões de segurança, não seria permitido que a criança embarcasse com os pais.

Sentindo-se vítima de discriminação, a família tentou negociar, mas não obteve sucesso. Apoiada então em uma resolução de 2007 da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que obriga as companhias aéreas a se adequar às necessidades das pessoas portadoras de deficiência, Pertile entrou com uma ação judicial contra a companhia.

– Maria Luísa tem dificuldades motoras, mas um acento de três pontas já seria suficiente para que ela pudesse viajar. Não encontramos uma explicação plausível, técnica ou jurídica para essa posição da empresa – afirma o advogado da família, Adroaldo Dal Mass.

O pai diz que, em consulta a outras companhias aéreas, obteve de todas elas a autorização para a viagem da pequena. Porém, a família aguarda para os próximos dias o resultado do pedido de uma liminar que pode permitir o embarque pela Gol.

– Hoje (ontem), me ligaram oferecendo desconto e uma maca para a minha filha viajar. Mas nossa luta agora não é mais pela viagem, mas sim pelos direitos da pessoa especial – comenta Volnei.

Em nota enviada à reportagem, a Gol Linhas Aéreas confirma ter oferecido ao cliente a possibilidade de transportar a criança em uma maca, e que as exigências da empresa estão em consonância com as normas de segurança estabelecidas pelas Autoridades Aeronáuticas.

sábado, 15 de outubro de 2011

Queridos mestres

Muitos dos meus seres humanos preferidos são professores. E alguns dos mais importantes também. Hoje percebo como não são apenas os colegas que me fazem falta nas salas de aula da vida. Os bons professores também sabem se tornar companhias imprescindíveis.
Não se constrói um bom ser humano sem bons professores. E os bons seres humanos que leem esse blog sabem que jamais esquecemos a convivência que tivemos, ou ainda temos, com nossos queridos mestres de toda a vida.
De todos os meus bons professores, fui melhor como amigo do que como aluno. Poucas vezes na vida fui bom aluno, pois meu interesse pelas aulas ia e voltava de tempos em tempo, sem que eu fizesse muito para mantê-lo além do estritamente necessário.
Mesmo assim, credito muito dos melhores traços da minha personalidade aos mestres com quem tive a oportunidade de aprender um pouquinho. Da pré-escola ao Trabalho de Conclusão na faculdade, aprendi a observar o mundo da forma como eles me sugeriam, chegando até a pegar o jeito deles falarem, daquela forma meio inconsciente com que isso acontece.
Acredito que os melhores professores são aqueles com quem aprendemos a gostar de algo que não sabíamos que poderíamos gostar. A paixão pela matéria que ensinam, aliada a algum carisma, sempre nos convence.
Sem citar nomes, para não cometer o pecado de esquecer alguém por pura falha da memória, aproveito as últimas horas deste Dia do Professor para dar, em forma de palavras, um imenso abraço nos queridos mestres que tanto me ensinaram. E pelo carinho que dispenso a todos eles, sei que citá-los aqui seria só um detalhe.

domingo, 9 de outubro de 2011

Crie a sua Apple

Os amigos leitores provavelmente já assistiram ao vídeo que mostra o belo discurso proferido por Steve Jobs aos formandos de Stanford, em 2005.

Embora em boa parte do texto o criador da Apple fale sobre o já surrado tema da importância de “fazer aquilo que amamos”, o discurso traz algumas reflexões muito legais, que, como sempre, se tornam mais sérias quando o autor se vai desse mundo (Jobs faleceu na última quarta-feira).

Assisti ao vídeo há algumas semanas, quando o assunto do dia era a renúncia de Steve Jobs ao cargo de CEO da sua Apple. E lembro-me de ter gostado principalmente de um trecho em que ele sugere como é possível ter aquela epifania que provoque a vontade de mudança diante da insatisfação:

"Quando eu tinha 17 anos, li uma citação que dizia algo como 'se você viver cada dia como se fosse o último, um dia terá razão'. Isso me impressionou, e nos 33 anos transcorridos sempre me olho no espelho pela manhã e pergunto, se hoje fosse o último dia de minha vida, eu desejaria mesmo estar fazendo o que faço? E se a resposta for "não" por muitos dias consecutivos, é preciso mudar alguma coisa."

Confesso que esta última frase, principalmente, me atingiu em cheio. Creio que por me sentir provocado a pensar que a passividade diante do que não nos satisfaz é uma regra da vida bastante difícil de burlar, e a imaginar o peso que pode ter a repetição de uma resposta negativa sobre o valor do que estamos fazendo com e para a nossa vida.

Acredito que, se passamos longos períodos da vida insatisfeitos, o mais comum é sucumbir à preguiça até de pensar se está bom ou ruim, e, se estiver mesmo ruim, no que daria pra melhorar. A preguiça é a fonte maior da tristeza e a tristeza, por sua vez, é fonte do marasmo que nos faz querer desistir e esperar o tempo, o nosso tempo, passar.

Este trecho do discurso de Jobs, em especial, é um convite a pensar em mudar. É uma passagem que pode vir à tona sempre que nos questionarmos sobre o sentido de nossas escolhas. Podemos conviver, eu mesmo já escrevi, com dias ruins, de achar que não está legal ou valendo à pena. Mas este mesmo sentimento, por dias consecutivos, é a deixa para tentar mudar. Acreditando que há sempre algo novo para fazermos de nós mesmos.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Estranged

Até para os que continuam fãs deste Axl Rose quase cinquentão, como eu, o show do Guns no Rock in Rio foi frustrante. Em alguns momentos, chegou a ser irritante.

O atraso, a chuva, as chatas sessões instrumentais, mas principalmente a sucessão de erros (solo de Welcome..., letra esquecida em November Rain, intro de Patience, entre outros), tudo contribuiu para que os críticos se tornassem mais críticos e os fãs um pouco mais céticos quanto ao futuro da banda e, especialmente, do Axl, que cantou bem abaixo do seu normal atual (comparações com 20 anos atrás não se justificam e nem interessam).

Mas não vou esconder que curti bastante alguns momentos. Acho que Rocket Queen e Nightrain foram bem executadas, por exemplo, assim como Better, uma das minhas preferidas do Chinese Democracy. E, para este fã, o fato principal foi que a banda finalmente tocou Estranged, 18 anos depois. E foi a melhor do show. Abaixo, compartilho aqui com os amigos que já estavam dormindo quando tudo aconteceu.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Férias!

Amigos leitores, nos próximos 10 dias este blogueiro estará ausente, repondo as energias na terrinha (acesso pela estrada acima, foto by Leandro Salvador).

Como estarei o mais distante possível da vida online - antes que ela me transforme em meio homem-meio computador -, a tendência é que o blog não receba atualizações nestes dias. Nada grave.

Desejo que todos fiquem bem. Até a volta!


quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Seja menos ingênuo

O ingênuo sofre mais. A ingenuidade é a causa de quase todo sofrimento, bem como a expectativa é o motivo maior das piores frustrações.

O ingênuo carece de anticorpos para se defender da vida Quem optou por manter a ingenuidade da infância, este valor tão consagrado (pelos adultos), jamais encontrou o tão esperado final feliz, disso pode ter certeza o amigo leitor.

Se há um homem menos suscetível aos horrores da ingenuidade, este é o pessimista. Pois o otimista é sempre mais ingênuo, é o que menos desconfia e o que mais se ilude. E o pessimista não necessariamente acredita que vai dar tudo errado. Ele só parte do princípio que as coisas não têm muito por que dar certo.

Sei que é legal e correto ser otimista, apenas desconfio que não compense em longo prazo. Tento não ser ingênuo, não acreditar no discurso chato de que “tudo é possível, basta acreditar”, “quem acredita sempre alcança”, entre outros clichês do gênero.

Vale mais admitir que nem tudo é possível, acreditando ou não, e que quem acredita nem sempre alcança, geralmente fica no meio do caminho. Mas que mesmo assim pode valer a pena tentar.

Considerando como verdadeira a inerência do sofrimento à nossa condição, também é sabido que vivemos para sofrer o mínimo possível, buscando pequenas alegrias que compensem nossas piores certezas, e que nos satisfaçam cotidianamente. É o melhor que podemos fazer.

Para minimizar desilusões, um bom caminho é tratar a vida como um infindável combate contra a ingenuidade. E o pensamento cético é sempre a melhor arma.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Como vivemos


Seu maior medo era o amor. Viveu a fugir, escondeu-se o tempo todo deste temor. Nisso, a vida passou. E de toda forma, morreu de amor.*

*mini-conto escrito em 2008, descoberto recentemente nos arquivos da casa.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Amigos verdadeiros e senso comum


Se deixarmos, o senso comum irá nos convencer que o verdadeiro amigo estará presente sempre nas horas mais difíceis. Como o cão que nunca abandona o mendigo. Quando todos os outros se revelariam meros aproveitadores da boa fase que um dia vivemos, ele estará lá para sentir conosco a dor que sentimos. É um verdadeiro anjo, o amigo verdadeiro que compramos do senso comum.

Não precisamos e nem devemos cobrar de nossos amigos que eles estejam presentes nas horas ruins. Já defendi isso por aí. O amigo não tem que nada...apenas ser amigo, e as horas ruins não o tornarão mais verdadeiro.

Não se trata, absolutamente, de desconhecer o valor do auxílio que um amigo pode nos prestar quando uma profunda agonia parece prestes a nos derrubar a qualquer momento. Mas sim de reconhecer que esse que nos conforta nas horas ruins pode apenas ter uma habilidade que falta àquele que silencia.

Se sou incapaz de aconselhar, acalmar, sugerir soluções, isso me faz um mau amigo, um falso e aproveitador? Não acredito nisso. Ser um bom conselheiro também é questão de habilidade, tanto quanto dar aquela força na hora da mudança de apartamento. Da minha parte, sou tão descoordenado para a maioria das atividades braçais quanto para dar conselhos.

Cheguei a esboçar uma tese de que podemos reconhecer um bom amigo não pela disponibilidade dele de nos ouvir, mas pela nossa de contar a ele o que nos aflige. Mas até isso ia exigir que o amigo fosse um bom ouvinte, e acabaria por desvalorizar os que quase só falam. E jamais o desvalorizaria, justo eu, sempre mais ouvinte do que falante, e que por isso preciso de alguém que fale para que eu escute.

Amigo não é para ser útil. Para nos serem úteis, existem profissionais bem capacitados (ainda que muitas vezes cobrem caro). Amigo é pra compartilhar momentos bons e ruins, só bons, ou só ruins. E quando alguém diz que o amigo que o consola é amigo de verdade, pode estar desconsolando outro tão verdadeiro quanto.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Dia do sexo


Depois de um fim de semana agitado e um início de semana bastante corrido, um breve post musical é o que temos para o momento, amigos.

Hoje (terça, 6/9) é o Dia do Sexo. Vocês sabiam que existia o Dia do Sexo? É oficial, gurizada. E em véspera de feriado, o que não deixa de ser oportuno.

Portanto, um feliz Dia do Sexo a todos os amantes, sejam eles de uma vida toda, de uma noite apenas ou tudo o que estiver neste espaço de tempo.

E, finalmente, proponho às autoridades competentes que Sex Machine, do James Brown, seja considerada o Hino do Dia do Sexo.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Aos eternamente invejados


O amigo leitor talvez já tenha deparado por aí com alguém que se considera o umbigo do mundo. Uma dessas pessoas que se sentem muito vigiadas, além de um frequente alvo de inveja e fofocas.

Uma dessas pessoas que, como forma de desabafar pela inveja que pesa sobre seus ombros, esbravejam pelas redes sociais para que os outros cuidem de suas próprias vidas, que paguem suas contas para depois falarem delas. “Tua inveja faz a minha fama” elas gostam de dizer.

Como eu não acredito que haja tanta inveja assim espalhada por aí, ou não na mesma proporção que os que se sentem invejados imaginam, achei ótima e precisa esta frase do David Foster Wallace*, que hoje dedico a essas pobres vítimas do mau agouro crônico e das piores conspirações do universo:

“Você irá se preocupar menos com o que as pessoas pensam sobre você quando perceber o quão raramente elas fazem isso.”

E podem acreditar nisso.


*Autor do discurso sobre a liberdade de ver os outros, já postado aqui.

sábado, 27 de agosto de 2011

Somos todos endividados

Por querermos colher hoje os frutos daquilo que deixamos/esquecemos/preferimos não plantar no passado, percebo que todos temos incontáveis dívidas a cobrar de quem já fomos.

Pois tudo que nos cabe fazer da vida hoje tem uma ligação intrínseca com o que fizemos no passado. E por carregarmos o fardo de nossas escolhas, no futuro cobraremos deste que somos hoje ter feito um pouco melhor.

Pensei bastante sobre isso quando imaginei que seria ótimo tocar harmônica em uma banda de blues. Seria ótimo se não fosse impossível, pois nunca aprendi a tocar harmônica. Ora, se eu sempre gostei de blues e de gaitas de boca, por que, nestes anos todos, nunca aprendi a tocar? Deveria ter considerado a hipótese de que um dia tocar harmônica em uma banda de blues me faria feliz.

Hoje não estou com paciência, nem muito tempo, para ter aulas de harmônica. Por outro lado, se não quero que daqui a alguns anos tenha essa dívida para cobrar do meu eu presente, deveria ceder e finalmente aprender a tocar esse instrumento?

É mais ou menos o mesmo princípio de quando não queremos estudar, mas compramos a idéia de que no futuro pode ser importante ter estudado, e por isso estudamos. Ou não estudamos, e assim contraímos uma dívida, que só cobraremos de acordo com as necessidades ou desejos que surgirem com o passar dos anos.

Creio não se tratar de arrependimento, que seria desejar ter feito diferente. Mas sim de questionar, com maior ou menor grau de culpa, o que nos levou às escolhas que fizemos.

Pensar sob esse ângulo faz parecer que cobramos de outra pessoa, com vontades que em nada dizem respeito às nossas. Quando penso que deveria ter aprendido a tocar harmônica (é só um exemplo, dos mais simples e despretensiosos. A coisa pode ser bem mais séria), pareço cobrar uma herança não recebida. Como se não fossemos o mesmo, aquele que não quis aprender e o que agora queria tocar em uma banda de blues.

Afinal, o que resta para o eu presente fazer que não vá desapontar o igualmente importante eu futuro? Pensar que o eu futuro herdará aquilo que eu escolher hoje torna tudo um pouco mais relevante.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Ciúme

Parafraseando Guilherme de Almeida, que termina o poema O Ciúme dizendo, sobre sua amada, “tenho ciúme de quem não te conhece ainda, e cedo ou tarde te verás, pálida e linda, pela primeira vez”, vou contar que tenho sentimentos parecidos.

Um certo zelo velado pelas boas sensações que experimentamos e que não se repetem. Não para nós, mas apenas para os que ainda irão experimentá-las. Ciúme mais ou menos como o do poeta, ainda que mais singelo do que este irrecuperável ciúme da primeira visão de uma linda mulher.

Exemplos?

Ciúme da insegurança de quem vai sair de mãos dadas com a namorada pela primeira vez.

Da euforia de quem ainda vai passar no vestibular e ver seu nome no listão do jornal (só depois cai a ficha de que difícil mesmo é não passar na maioria dos vestibulares).

Da felicidade de quem dará início a muitas amizades de sala de aula, no colégio, na faculdade, onde for, e, sem que precise esforço, manterá as melhores.

Da irracionalidade de quem se tornará um fiel devoto de uma banda de rock (como eu fui duas vezes, pelo menos) e deixará crescer o cabelo, vestirá camisetas da banda, rasgará as calças, aprenderá a tocar um instrumento, formará uma banda com os amigos.

Do esforço de quem passará uma noite sem dormir apenas para descobrir como o dia amanhece (mais tarde viramos a noite ao natural e nem sempre é tão poético).

Tudo isso e muito mais já foi novidade em nossas vidas antes de se tornar comum. E poucas coisas guardam o sabor das primeiras vezes. O que não podemos reviver, desejamos que outros vivam igual. E não cansamos de falar o quanto foi bom. Mas só até onde o nosso ciúme permite.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Sobre linhas tênues

Com ou sem sombrinha, amigos leitores, difícil mesmo é se equilibrar nas cordas bambas da vida. Pelas linhas tênues que percorremos, o tombo parece sempre o próximo passo.

Vivemos, afinal, entre a agonia das longas saudades e o enfado do convívio diário.

Entre a timidez que desperta o interesse e a quietude inerte que entedia.

Entre a inteligência que faz amigos e o pedantismo que os afasta.

Entre a felicidade que contribui para a felicidade dos que gostamos e a euforia, tão somente.

Entre o otimismo, tão somente, e a ingenuidade da expectativas frustrantes.

Entre a paciência de esperar e a omissão de preferir não agir.

Entre a beleza que encanta e a beleza que intimida.

Entre o amor cuidadoso e preocupado e o apego obsessivo.

Entre o amor descuidado e o desamor.

Entre o amor como objetivo e o amor como objeto.

Entre as coisas ruins que fazem bem e as coisas boas que fazem mal.

As linhas tênues da vida são mesmo um convite ao tombo.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A gente mesmo, demais


- O senhor sabe o que é o silêncio? É a gente mesmo, demais.

(fala do jagunço Riobaldo em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa)


Não parece haver busca mais compensadora na vida do que a do autoconhecimento. Conhece-te a ti mesmo, disse Sócrates, e quase toda a filosofia se dá a partir desse desejo que temos de reduzirmos nossa ignorância acerca de quem somos. Mas como pode, ao mesmo tempo, ser tão frustrante, ao ponto de ser perigoso, conhecer a si mesmo?

As poucas certezas que acumulamos tendem a ser pouco complacentes com o nosso projeto de vida. E não sermos o que achamos que seríamos talvez seja esse um dos grandes causadores das nossas maiores e mais verdadeiras tristezas.

Temos defeitos demais, erramos demais e nossas escolhas raramente estão certas. Temos todos os motivos possíveis para passar a vida arrependidos, se assim quisermos. E ainda passamos boa parte da juventude sob o pensamento de que éramos feitos somente para experimentar grandes coisas. Mas somos absurdamente comuns, e não é nada fácil se acostumar a isso.

A busca por conhecer a si mesmo é um prato cheio para o julgamento apressado, que impede uma proximidade maior da compreensão, que por sua vez seria um grande passo para nos tornarmos um pouco melhores. Mas, como já escrevi aqui, julgar é mais rápido e mais fácil - e por isso mais tentador - do que compreender. E o pouco que julgamos saber de nós mesmos se perde em uma série de conceitos equivocados.

É um tanto quanto irônico, mas nosso maior objetivo pode levar ao mais profundo abismo. O autoconhecimento, verdadeiro, é difícil de encarar. Que ele venha sempre fantasiado com belas máscaras parece até melhor.