terça-feira, 24 de maio de 2011

Os males da coluna diária

Podem cobrar futuramente, mas duvido que este blogueiro venha um dia a se aventurar no ofício de colunista diário, seja de jornal, site ou blog mesmo.

Sem entrar nos méritos da inspiração e do talento, que também podem faltar a este cronista, o requisito que certamente não cumpro é o desapego pelos meus escritos.

Sou muito apegado ao que escrevo. Lembro de cada título, de cada argumento, de cada frase que já tenha agradado a alguém, de cada comentário Se produzisse 365 textos por ano, como daria atenção a cada um deles? Crônicas são filhos que coloco no mundo. Sou a mãe, o leitor assume a paternidade.

Alguns textos são produtos de semanas de pensamentos, de inúmeras tentativas e erros, e até de desistência temporária, até que retorne a ele após aquela sacada que faltava e que surge inesperadamente. É um ritual dramático e às vezes desgastante (para este que vos escreve. Nada de generalizar).

Todo esse envolvimento faz do texto uma experiência difícil de imaginar enquanto exercício diário sem a impressão de que estaria banalizando o que mais gosto de fazer.

Paulo Sant’Ana, cronista idolatrado por este aprendiz, publicou 16 mil colunas em Zero Hora. As melhores, as mais árduas, para não condená-las à efemeridade da página de jornal, reuniu em três livros. Por três vezes, voltou do sótão com uma caixa cheia, carregando só o que o tempo não estragou. É um apegado ao texto, mas que ocupa os lapsos de inspiração com mais textos, alguns descartáveis. É cronista refém da coluna diária.

O colunista diário tem que ter muito a dizer. Dizendo muito, esquece muito o que já disse. Prefiro esquecer pouco. E não tenho tanta coisa assim a dizer.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Viver de improviso

Gosto demais de não saber o que quero da vida. Que sensação, amigos. Sempre que ela me assalta, não exito em elogiá-la. E durmo melhor depois.

Quem gosta de viver em cima de muitas conclusões, não pode perder de vista que a vida é, acima de tudo, uma invenção. Um improviso, como já ouvi dizer o octogenário poeta Ferreira Gullar, com quem compartilho a crença no poder do acaso que move o mundo.

O maior privilégio que se pode ter é o de inventar a si mesmo, e nisso pode estar nossa certeza de felicidade. Sermos nosso próprio criador e criatura. E a melhor forma de improvisar a vida é impondo a ela o mínimo de delimitações, oferecendo o máximo de opções que se pode prospectar numa noite de quase inverno.

Quanto a mim, confesso que vivo de puro improviso. Não sei por que sou e até quando quero ser jornalista, se um dia escreverei um livro, que livro será esse, quando vou querer ter filhos, onde irei criá-los, se irei aprender francês ou gaita-de-boca. Talvez chegue aos 30 querendo ser professor, aos 40 um fotógrafo, aos 50 um eremita. O certo é que hoje há infinitas possibilidades, e tê-las comigo, jogar com elas, pra lá e pra cá, é inventar a vida.

Somos aquilo que fomos capazes de criar. Somos o rascunho sem direito à arte final. Mas com inúmeras folhas em branco.

terça-feira, 17 de maio de 2011

30 palavras-chave para gostar do frio

Para acrescentar, questionar ou remover a gosto:

Cobertor; Café; Blues; Sopa; Pinhão; Neve; Livro; Filme; Touca; Luva, Manta; Lareira; Chocolate quente; Serra; Neblina (a.k.a cerração); Abraço; Cor cinza; Pratos quentes; Jazz; Cama; Amanhecer; Sofá; Pele; Filosofia; Coisas de lã; Bancos de praça; Solzinho; Fogão a lenha; Turistas lindas

domingo, 15 de maio de 2011

Saldo do Gauchão

Com os dois clubes tendo sido eliminados da Libertadores de forma decepcionante, o menos provável era que no confronto direto fosse revelada uma superioridade muito grande de um dos lados. E o 3X2 para o Grêmio no Beira-Rio, e o 3x2 para o Inter no Olímpico, denotam esse equilíbrio total e justificado.

Parabéns aos colorados. Mas vamos ao Grêmio:

O Grêmio perdeu nos pênaltis, após sete rodadas de cobranças, mas redescobriu nestas finais que tem elementos para formar um time competitivo para o Brasileiro. Sem badalação, mas competitivo, como exige um campeonato de pontos corridos.

Time que pode ter Vilson na zaga ao lado de Rodolfo, que tem um grande volante (Rochemback) e dois meias que se completam (Douglas e Lúcio), e, finalmente, um imprescindível atacante de velocidade (Leandro). E em pouco tempo, estarão de volta Gabriel e André Lima, dois bons reforços em relação ao time das finais. E Escudero pode ganhar novas chances, assim como Fernando.

É preciso reforçar, sem dúvidas. Investir em um bom lateral-esquerdo, pelo menos mais um atacante de área e um reserva para o Douglas. Mas não há motivos para crise no Olímpico. E domingo começa tudo de novo.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Preguiça

"Na minha próxima vida, quero ser um gato. Dormir 20 horas por dia e esperar ser alimentado. Sentar por aí lambendo meu cu. Os humanos são desgraçados demais, irados demais, obcecados demais." (Charles Bukowski)

Seria meu gato o Bukowski reencarnado?

domingo, 8 de maio de 2011

Sobre o Gre-Nal

No post de 16 de fevereiro, este blogueiro escalava o Grêmio que considerava ideal para a Libertadores.

Curiosamente, o time tinha a dupla de zaga Vilson e Rodolfo, que finalmente foi a campo no Gre-Nal de ontem, e o seguinte meio-de-campo, que, perdõem a redundância, finalmente foi a campo no Gre-Nal de ontem: Rochemback, Fernando, Douglas e Escudero.

Alguém tem dúvidas de que o técnico Renato leu, ainda que com atraso, o referido post antes de escalar o time que jogou o Gre-Nal?

Brincadeira à parte, é apenas óbvio que um time que joga com Vilson no lugar de Rafa Marques e Fernando no lugar de Adilson tem muito mais chances de ganhar um jogo. Só precisou o acaso de um desconforto muscular e uma suspensão para essa verdade aparecer.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Homenagens

Eis que domingo é o Dia das Mães. Data tão bonita, que nem ficamos tristes por ela cair sempre no domingo. Quem não tem prazer em dar à sua mãe um belo presente? Pode-se questionar o cunho comercial do dia dos namorados, do natal, da páscoa. Mas o Dia das Mães é dia de dar presente e ninguém discute.

Dia das Mães, portanto, e eu adoraria poder escrever aqui uma bela homenagem para a minha, ou a todas. Mas de que forma, se sou assumidamente um péssimo redator de homenagens? Talvez só a poesia me seja um texto tão estranho quanto a reverência.

Desobri isso quando minha própria progenitora, repetidas vezes, pedia-me que escrevesse homenagens em determinadas situações: para pôr no jornal, para ser lida em voz alta, essas coisas. Mas nem com a maior boa vontade - que me é característica em assuntos maternos - saiu uma única palavra.

Sou bloqueado para homenagens, assim como não sei dar feliz aniversário sem recorrer aos eternos clichês. E se sou eu o aniversariante, nada de útil encontro para dizer além de agradecer. Não sei se há relação entre essa três coisas, mas parece haver.

Homenagens me deixam tímido. Assim como Manoel de Barros diz que é fraco para elogios, eu digo que sou fraco para elogiar. Vão-se embora as palavras na hora de expressar como uma pessoa é importante pra mim. Talvez porque é fácil ser superficial, e ninguém quer soar superficial em sua grande ode.

Preciso com urgência de uma oficina criativa. Nem parece que trabalhei por seis meses na Assembléia Legislativa, assistindo diariamente a deputados homenageando a quase todos os vivos e mortos imagináveis.

Não vá seguir o amigo leitor o mau exemplo deste amigo. Elogie gratuitamente, digam às suas mães o quanto elas são importantes para vocês, por mais que elas já saibam. Como minha também sabe, porque elas sempre sabem. Mesmo sem ler nada a respeito.

domingo, 1 de maio de 2011

Amigos e livros

Faço com os meus amigos o mesmo que com os meus livros. Sei onde posso encontrá-los, mas raramente os procuro. A boa sacada não é minha, naturalmente. É do pensador Ralph Waldo Emerson, um cara de boas sacadas que viveu no século XIX e que, se não atribuísse tanta coisa ao poder divino, seria ainda mais recomendável. Ainda assim, vale a pena ler suas idéias sobre amor, intelecto, autoconfiança e amizade, todos temas e títulos dos seus ensaios.

Sobre amigos e livros, a analogia é perfeita. Pouco folheio meus livros já lidos, mas se me falta algum, não paro de olhar para a estante, sabendo que está incompleta, que um espaço está vazio. Com os amigos, dá-se o mesmo. Não costumo ligar, não costumo visitar, não costumo puxar conversa no MSN. Creio que sou um fiasco.

O importante é o amigo saber que não é por falta de interesse que deixo de procurá-lo. Pelo contrário. Como todos sabem, amo demais meus amigos. É para não me sentir banal que modero o convívio. É para preservar do dia-a-dia, que torna tudo enjoativo, minha voz, minhas palavras e até meu silêncio. É por confiar que não serei esquecido, mesmo que ausente, e talvez seja até melhor lembrado assim. E para ser procurado, também.

Outro componente, não tão poético, é a falta de tempo, de oportunidades de reencontro, que a vida impinge. As amizades praticamente rivalizam como todo o resto da nossa agenda. Estamos sempre mudando, e as mudanças tendem normalmente a separar os amigos, raramente a juntá-los. Seria esse o único lado ruim de mudar? Difícil afirmar, uma vez que a mudança também traz novos companheiros, igualmente necessários.

Finalmente, olhar para a estante de livros faz pensar no tempo que resta para reler todos aqueles que mais me marcaram. Nunca releio, mas sei que sempre há tempo. Além disso, não importa quantos volumes novos irei adicionar, eles estarão sempre lá, bem guardados, assim como os amigos. Para me tornar menos incompleto, e por isso não abro mão deles. Ainda que raramente os procure.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Pra não dizer que não falei de Libertadores

Não é de hoje minha opinião de que o Grêmio repete os mesmos erros de sempre nesta edição da Libertadores. No dia 24 de janeiro, argumentava que, sem qualidade no elenco, este seria mais um ano em que apostaríamos tudo na raça e na superação. E, ao que parece, não estava errado.

Contando com raça e superação, o tricolor pode até avançar uma ou outra fase, mas fatalmente será eliminado diante de um Santos, um Cruzeiro, talvez até um Internacional. Sem tais predicados, jogando o futebol ingênuo e resignado que tem mostrado, o mais provável é que o time volte do Chile eliminado já nas oitavas-de-final.

Ser torcedor do Grêmio é se acostumar com a mediocridade. Há pelo menos três anos Adilson é aplaudido, nunca ouviu vaias. Que outro time teria Adilson como titular há tanto tempo? O mesmo que teve Tcheco como camisa 10 por longas temporadas. Idolatramos Diego Clementino no ano passado, agora sentimos falta do Paulão, do Vilson, do André Lima.

Quem pode se surpreeender com uma eliminação precoce na Libertadores ? Só quem ainda acredita na supremacia da raça e da superação. A direção gremista, talvez.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

10 sambinhas

Muitos sambinhas no pen drive ultimamente. Palavra boa de dizer, "sambinha". A pessoa pode não gostar de samba, mas como não vai simpatizar com um "sambinha"?

É verdade que não tenho pelo samba a mesma curiosidade e interesse nutro que pelo jazz, blues ou rock. Meu repertório é pequeno, principalmente do samba mais puro, dos sambistas menos misturados com outros ritmos. Jorge Ben, João Bosco, Chico Buarque, são todos incríveis, mas não exatamente sambistas.

É o samba dos sambistas o que mais tenho ouvido nos últimos dias. Sem método, descubro tudo por acaso. Se gruda na memória, guardo o nome pra procurar depois. Aos poucos, o acervo cresce. E algumas das canções que já cantarolo por aí, faço questão de compartilhar com os amigos leitores. Ei-los:

Disritmia, do Martinho da Vila (Ouvir)

A flor e o espinho, do Nelson Cavaquinho e do Guilherme Brito (Ouvir com a Roberta Sá)

Samba da minha terra, do Dorival Caymmi (Ouvir com a Elza Soares numa versão jazzística)

Coisinha do Pai, do Jorge Aragão (Ouvir com a Beth Carvalho)

Conversa de Botequim, do Noel Rosa (Ouvir com o Chico Buarque)

Retalhos de cetim, do Benito di Paula (Ouvir)

Vou festejar, do Jorge Aragão (Ouvir com a Beth Carvalho e a bateria da Mangueira)

Volta por cima, do Paulo Vanzolini (Ouvir com o Noite Ilustrada)

Folhas Secas, do Nelson Cavaquinho e do Guilherme Brito (Ouvir)

O quitandeiro, do Monarco (Ouvir)

domingo, 17 de abril de 2011

Dois tercetos e sete parágrafos sobre a felicidade


Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos

Os versos acima encerram o soneto Felicidade, do poeta português Vicente de Carvalho. Não sou um grande leitor da poesia lusitana, mas conheci estes versos por acaso, e, fato raro, não os esqueci mais.

Reflexões sobre a felicidade, ainda que geralmente improdutivas, são necessárias. Viver sem reflexão é ser guiado pelo piloto automático. Não tem graça. O que segue, portanto, são parágrafos sem nenhum encadeamento. Meras reflexões dominicais.

A felicidade como única obrigação da vida, conforme nos ensinam, pode ser tão somente a busca incessante da felicidade.

Alguém já cogitou que talvez a felicidade não tenha essa importância toda? Vinicius de Moraes, por exemplo, sugere que é melhor viver do que ser feliz.

Por que, afinal, a felicidade nunca está onde nós estamos, se nós é que a pomos? Só pode ser para não darmos por encerrada essa missão maior, de buscar ser sempre mais feliz.

Estando a felicidade distante o bastante para passar a vida inteira a buscá-la, já nos sentimos felizes quando a sentimos próxima. Mas então recuamos. Ou a chutamos para bem longe, tão logo seja possível alcançá-la.

Para este blogueiro, ser feliz é compartilhar a vida com quem se gosta. E gostar de quem compartilha a vida conosco. Tem felicidade mais fácil de alcançar?

terça-feira, 12 de abril de 2011

A barriguinha da Scarlett

Sou fã, mas muito fã, da Scarlett Johansson. Isso vem desde Matchpoint, aumentando após Uma Canção de Amor Para Bobby Long, Vicky Cristina Barcelona, e por aí vai. E confesso ter ficado ainda mais devoto depois de ver a foto abaixo, em que ela ostenta uma barriguinha pra lá de humana. Achei linda a Scarlett em versão cotidiana.

Porque a barriguinha acima é aquela da mulher parceira para um chopp no fim da tarde ou uma cervejada com a turma no fim de semana. Que adora comer chocolate em frente à TV no inverno, e sorvete no verão. Gordurinha de quem prefere um rodízio de pizzas a se matar em uma academia, resolvendo tudo com corridinhas leves quando possível. Fosse a Scarlett Johansson uma mulher absolutamente sarada, perderia todos estes predicados que só a valorizam ainda mais no humilde conceito deste blogueiro.

Nunca me preocupei com o fato de uma mulher ter celulite, por exemplo. Também me agradam os braços fofinhos, e nem precisaria manifestar novamente aqui meu apreço pelas panturrilhas generosas. Poderia elaborar uma lista aqui de mulheres famosas que me encantam e que dificilmente receberiam convite para um ensaio para a Playboy. Não trocaria por nenhuma outra a Natália Lage (a Tina, da Grande Família). Até já comentei por aí que sou contra qualquer forma de casamento, exceto se a noiva for a Natália Lage.

Não é dizer que aparência não é importante. É defender a aparência agradável. Menos badalada, mais protegida do olhar comum. Da mulher que encoraja o "oi" à primeira vista.

Defenderei até a morte o direito da mulher de ostentar sua barriguinha. Sean Penn é meu aliado.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Lucianos e douglianos

O mundo é feito de Lúcios e Douglas. Para quem não é do futebol, traduzo a metáfora: nosso mundo é habitado pelos esforçados e pelos brilhantes. E ambos são importantes e necessários, assim como os dois jogadores - Lúcio, o operário, e Douglas, a estrela - são imprescindíveis ao time do Grêmio.

Os esforçados - os lucianos - caracterizam-se pela eficiência e correção em tudo o que fazem. Gostam de se sentir úteis e por isso trabalham, incansáveis, o tempo todo. Os brilhantes - os douglianos - não demonstram tanto interesse assim no coletivo. Tudo o que fazem parece iniciar e terminar em si mesmos. Têm mais pensamento do que ação em sua natureza. Mas são os que tomam poucas e boas decisões quando necessário.

Os douglianos também têm por característica falar pouco. Procuram as palavras certas para falar bonito. Os lucianos gostam mais da conversa fácil, mas, por substituírem muitas vezes o pensamento pela fala, podem se tornar chatos, de tão eloquentes. O que também acontece com os douglianos: em dia de pouquíssima inspiração retórica, são facilmente dispensados.

O ser luciano oferece à sociedade seu esforço, e podemos contar sempre com ele, pois tudo o que faz é com método e competência reconhecidos. O dougliano, ao contrário, por nos brindar com o brilhantismo, muitas vezes nos irritará com sua inércia, com seu aparente comodismo diante do que o luciano está sempre tentando mudar. Mas é do prazer de surpreender que o dougliano vive. Daí a falsa ausência, para que dele nada se espere. Para que a surpresa seja maior.

Há Lúcios e Douglas por toda parte. Esforçados e brilhantes, vivendo a vida cada um ao seu modo, mas construindo juntos. Quem ganha é sempre o time.

domingo, 3 de abril de 2011

Memórias do rádio serrano

Imagine quatro amigos reunidos. Ele conversam, contam piadas, ouvem música, talvez estejam tomando cerveja. Imagine outros amigos chegando, com um violão para tocar, participar do papo ou apenas dar um oi, porque estavam passando e viram a reunião pela janela. Imagine esse encontro acontecendo toda semana, por duas horas, sempre no mesmo horário. Imagine que isso seja um programa de rádio, em que outros amigos ligam para sugerir músicas, lançar um assunto, entrar nas discussões ou apenas mandar um abraço. Legal demais, não?

Nesta terça-feira, 5 de abril, completam-se seis anos do início de uma das experiências mais memoráveis da vida desta blogueiro: O programa Tomarock, que tive a felicidade de ancorar junto dos amigos Juliano (também aniversariante do dia), Renan e Ricardo (Punk). E tenho certeza que não só os apresentadores, mas também os amigos que viveram aquela história, não esqueceram os pouco mais de seis meses em que o programa esteve no ar na Comunidade FM, de São Chico, sempre nas noites de segunda-feira.

Renan, Juliano e Andrei

Idealizado pelos dois primeiros, eu fiquei sabendo que seria um dos integrantes no dia do programa ir ao ar, quando chegou o Juliano na minha casa, dizendo que às 20h eu teria que estar no estúdio, com no mínimo uma piada pra contar, mas de preferência uma coluna, sobre qualquer coisa. Nasceu então a Coluna do Andrei, que falava sobre qualquer coisa. Sempre seguida de músicas que eu sugeria, tentando estabelecer conexão com o tema tratado.

O Tomarock, mesmo com todo o nosso amadorismo, tinha a melhor vinheta de programa de rádio de que tenho lembrança. A música Never Look Back, do Blues Saraceno (que nos metíamos em nem-tão-determinado ponto gritando " aeeeee tomaroqueeee!!") foi uma escolha cirúrgica do Renan. O roteiro, quando havia, era escrito em uma folha de caderno, com uma das letras menos legíveis que conheço, que é a do Juliano, contendo quatro ou cinco tópicos que poderíamos abordar ou não. A cerveja geralmente era presente do bar mais próximo, que recebia os devidos comentários elogiosos, numa espécie de permuta informal infalível.


Éramos a resistência roqueira caída de paraquedas em uma rádio dominada pela música gaúcha tradicionalista. Nossa divulgação consistia em um único cartaz, fixado em um posto em frente à sede da rádio. "O programa que não deixa seus ouvidos adoecerem" parecia um slogan apropriado. Nosso acervo eram os CDs que cada um tinha em casa, e a cada segunda carregava para o estúdio, misturando tudo em poucas pilhas bagunçadas.

Tínhamos sérios problemas com as ligações a cobrar, que se repetiam à exaustão sempre que queríamos colocar um ouvinte no ar. O estúdio era sempre uma festa, onde todos eram bem-vindos e convidados a participar, e até os mais tímidos eram convocados a dizer apenas um "olá, ouvintes" no microfone. E se alguma ouvinte ligava com uma voz aveludada, o flerte coletivo rolava na hora. Tenho saudade daquela época, amigos.

Que grande balaio de lembranças soltas restou daquele período que logo precisou ser interrompido, como tende a acontecer com quase tudo o que fazemos por hobby. Mas as marcas do Tomarock ainda carrego comigo. E não só na memória, mas também no currículo, onde a experiência profissional malandra e orgulhosamente começa assim: “2005 – Locução em rádio comunitária”. Não poderia ter sido melhor.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Nostalgia digital

Aposentei meu primeiro pen drive há pouco mais de um ano. Tinha memória de 1gb e nem era um pen drive de verdade, mas sim um ex-MP3 player, convertido em pen drive depois de estragar. E que ainda foi substituído por outro ex-tocador de música, de 2gb e trajetória semelhante. Após outras experiências, só no ano passado fui ter um pen drive de verdade, de 4gb, que me acompanha até hoje.

Pois foi agora há pouco, remexendo em gavetas cujas tralhas desde a última mudança não viam alguma luz, que encontrei aquele primeiro pen drive improvisado, já coberto de poeira, denunciando a condição de aposentado. Na hora soube que era inevitável ver quais arquivos restavam dentro dele, coisas que há um ano certamente eram importantes, mas que hoje podiam restar esquecidas em uma espécie de depósito eletrônico. Nascia nesse momento a nostalgia digital.

Fui direto na pasta “Músicas”. Encontrei apenas um arquivos em MP3, que logo identifiquei porque estava ali. Era a música Energy, da banda The Apples In Stereo, usada como trilha em um programa de rádio na época do Portal3, meu primeiro estágio. Os ex-colegas daquela época haverão de lembrar como eu cantarolava o refrão dessa música – trilha de um comercial da Pepsi - o tempo todo.

Algumas crônicas estavam soltas no depósito, como folhas separadas de um caderno qualquer. Os arquivos nem tinham os títulos das crônicas, mas sim o argumento de cada uma: "10 motivos para conhecer São Chico”, “Saudade”, “sobre Tom Waits”. E tinha até um currículo, que me permitiu, ao ler todas aquelas informações defasadas, matar mais um pouco da saudade de quem eu mesmo era há pouco mais de um ano.

A pasta TCC, onde achei que encontraria os primeiros fichamentos do trabalho de conclusão, os primeiros esboços, artigos em formato PDF, para minha surpresa, estava vazia. Já havia jogado fora, talvez em alguma mudança de pen drive. Ao contrário de tudo o que some no mundo material, no depósito digital não temos nem em quem colocar a culpa pelo que desaparece.

O resto é resto: Photoshop CS3 portable, uma reportagem da Piauí copiada no bloco de notas, legenda de filme e alguns artigos retirados da internet e copiados no Word, que nunca cheguei a ler.

Como toda gaveta que abrimos depois de muito tempo, também esse lugar em que despejamos nossas coisas do mundo digital, quando abrimos, trazem muitas lembranças. Como toda a gaveta, lembranças boas. Daquilo que, por algum motivo, não jogamos na lixeira.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Nada pior do que tarde demais...

"Lindo" não é o adjetivo mais comum para classificar qualquer texto de Charles Bukowski, o mais maldito dos escritores considerados malditos. Mas o beberrão sacana e pornográfico também tem seus momentos de puro lirismo. Sem deixar de lado a mesma sabedoria das linhas mais sujas que escreveu.

Por isso, só posso dizer que as linhas abaixo não formam nada menos do que um lindo poema. Feito este intróito, vejam que beleza o poema abaixo, livremente traduzido por este blogueiro (posto o original nos comentários).

Oh Yes

há coisas piores do que
estar sozinho
mas muitas vezes leva-se décadas
para percebê-las
e na maioria das vezes
quando você faz
é tarde demais
e não há nada pior
do que
tarde demais.


quarta-feira, 23 de março de 2011

Eles voltaram: 10 blues para o seu outono

Sucesso absoluto em 2010, a explosiva lista de Blues Para o Seu Outono está de volta, republicada, contemplando os novos leitores que ganhamos nos últimos tempos.

Já dizia Janis Joplin, que "o Blues nada mais é do que sofrer por algo que não se tem". Nestes dias de friozinho contemplativo, vamos chorar as mágoas com a poesia e o ritmo dos grandes mestres do Blues.

1 – Gamblers Blues – do grande Lightnin’ Hopkins. Permitam-me dizer, nenhum bluesmantocou violão como ele (pelo menos entre os que não venderam a alma na encruzilhada). Esta música tem uma introdução de violão que fiz questão de aprender nas primeiras aulas com o mestre e amigo Luis Fernando Herrmann. E a voz de Hopkins é daquelas perfeitas para uma noite de frio, chuva, café, fogão a lenha, nostalgia. Ouvir.

2 – Hoochie Coochie Man – clássico de Willie Dixon, o maior compositor da história do Blues, sem discussões, gravada originalmente por Muddy Waters.Uma das frases de guitarra mais marcantes da história do blues, dobrada por uma harmônica que é a cara do blues. Esta versão é - desculpe o termo pra lá de antigo - matadora. Ouvir.

3 – Little Red Rooster –Traduzida livremente como “galinho vermelho”, esta também é de Willie Dixon, gravada originalmente por Howlin’ Wolf. Incluo na lista por ter sido aquela que me fez gostar de blues. Para ser preciso, foi com a gravação do Rolling Stones no álbum Flashpoint, com participação do Eric Clapton. É a que entra na lista. Ouvir.


4 – I Just Want to Make Love to You – Todas as (muitas) gravações dessa música me agradam. Certamente, porque a música é boa mesmo. Dá pra escolher a versão de Muddy Waters, de Etta James, do Chuck Berry, é só procurar. Aqui, mando a de Etta James, para ter uma voz feminina (e que voz!). Ouvir.

5 – Love in Vain – Composição de um dos pioneiros do Blues, o lendário Robert Johnson. A letra é de um drama impossível de passar batido. Algo como o cara que seguiu a amada até a estação e ficou aos prantos ao ver o trem partir, achando que todo o seu amor foi em vão. A versão original, gravada por Robert Johnson em 1937, merece ser preservada nesta lista, por raiva da versão dos Rolling Stones - uma delas, a do Stripped, de 1995 – que me mostrou que eu nunca seria um bom tocador de Blues no violão. Ao contrário do meu amigo Angelo Casara, que a executa com perfeição. Ouvir.

6 – They call it Stormy Mondayde T-Bone Walker, é a letra de Blues mais inspirada que eu conheço. Em primeira pessoa, o narrador fala simplesmente de uma tristeza difícil de traduzir e exemplificar. É o lamento do Blues e pronto. Que dura a semana inteira, até que no sábado o cara sai para tocar e se livrar de todos os problemas da dura vida do homem abandonado pela mulher. A interpretação de Eric Clapton, no álbum The Blues, de 1990, é incrível. Ouvir pt.1 Ouvir pt.2

7 – The Spy – Poesia pura neste blues do The Doors. O primeiro verso já carrega uma imagem incrível, daquelas que só Morrison saberia criar. Algo como “eu sou o espião na casa do amor. Eu sei os sonhos que você está sonhando”. Também uma das melodias mais bonitas cantadas pelo poeta maior do Rock. Na cinebiografia que leva o nome da banda, Morrison (Val Kilmer) cantando os versos de The Spy para Pamela (Meg Ryan) é uma das melhores cenas do filme. Ouvir.

8– Smokestack Lightnin’ – de Howlin’ Wolf, de 1951, um dos intérpretes mais peculiares do Blues. É dele mesmo a versão mais conhecida desta música. O melhor aqui é o clima sombrio criado pelos uivos em falsete de Wolf. Clima que o Aerosmith desconsiderou quando gravou esta Smokestack no seu MTV Unplugged. Apesar disso, a versão deles é boa também. Mas aqui mantenho a do Lobo Uivante. Ouvir.

9 – I Can’t Quit You BabyOutra do Willie Dixon, gravada originalmente por Otis Rush, mas celebrizada pelo Led Zeppelin, em 1969. Daqueles blues beeeem arrastados, impossível de ouvir em momentos de agitação, mas perfeitos para as horas mais calmas, ou aqueles em que buscamos ficar mais calmos. Mais contemplativos também. Ouvir.

10 – Champagne and Reefer – Na letra deste Blues, Muddy Waters (dia desses um amigo malandro perguntou se eu conhecia o Águas Barrentas) pede "champanhe de manhã, e um baseado, pra ficar bem chapado". A melhor versão que já ouvi está no recente DVD Shine a light, dos Rolling Stones, onde a banda recebe o espirituoso e craque guitarrista Buddy Guy para cantar e tocar junto. Ouvir.

domingo, 20 de março de 2011

Feliz estação nova

Acabou, amigos. O longo e tenebroso verão acabou. Espero que os partidários da estação tenham aproveitado ao máximo, que tenha valido cada gota de suor e cada noite mal dormida.

A partir de agora, tudo é outono. Tudo são casaquinhos do avô, café passado com trilha sonora, cobertores que parecem ter sido feitos sob encomenda, de tão aconchegantes, mulheres cada vez mais belas, mostrando todo o bom gosto, a elegância e belos sorrisos.

Outono. Volto-me novamente para o blues e para o jazz, que na minha casa pouco se dão com o verão, por pura incompatibilidade de gênios. No verão ouço mais samba, rock e samba-rock. Sons que reidratam, repõem a energia que o calor consome. Agora, quero só a sossegada contemplação outonal por um bom tempo. Quero ler o dobro de livros em relação ao verão.

Percebo as pessoas mais calmas no outono. Agitação pra quê? Sintamos a cordialidade aflorando pelas ruas novamente, agora que o nervoso verão se foi. Vamos matar a saudade dos pratos quentes. Vou ali preparar uma sopa e já volto.

Sei que pego pesado com o verão, que, afinal, nos dá também algumas alegrias, como os vestidos curtos e esvoaçantes e a cerveja rigorosamente gelada. Mas peço um voto de confiança, e podem me cobrar daqui três meses: começa agora nosso auge de felicidade em 2011.

sábado, 19 de março de 2011

Lembre de alguém que...

A imagem acima é uma dessas que estão em moda nas redes sociais, em que associamos amigos (linkando seus perfis na rede a algum dos ítens) a alguma espécie de símbolo. Em uma delas,por exemplo, escolhemos qual amigo mais se assemelha a determinado personagem dos Simpsons, por exemplo.

Esta que trouxe para o blog, em especial, além de ser simpática, sugere um bom exercício para pensarmos naquelas pessoas importantes, que tornam a nossa vida igualmente relevante:

É simples

Lembre (na minha livre adaptação do original tag - algo como "etiquetar", no contexto das redes sociais) de alguém que...

...mudou tua vida
...é realmente alto
...é o teu irmão não-biológico
... gosta de música boa
...é a pessoa mais esperta que tu conheces
...fala muito
...é um velho amigo
...você sempre pode contar
...tua irmã não-biológica
...sempre te fará rir muito
...é um salva-vidas
...fica bem com roupa listradas
...é um novo amigo
...tu sentes saudade (ou sente falta)
...tu podes confiar
...é um bom amigo
...tu viajarias pelo mundo com
...tu tens medo
...tem belos olhos
...sabe fazer uma boa comida

quarta-feira, 16 de março de 2011

Um ano em doze lembranças

Daqui a 10 dias, o Andreinews, a leitura que você normalmente não leva para o banheiro, completa o seu primeiro ano de vida. Só um ano, mas o suficiente para que o blogueiro não imagine mais sua vida sem esse blog.

É, amigos, fechamos a primeira temporada com números bem bacanas. Foram até aqui 164 postagens, o que, acredito, dê uma média de uma a cada dois dias e algumas horas, e mais de 17 mil acessos, sendo que nem todos foram da mãe do blogueiro.

Claro que, muito mais importante do que os números, são os comentários (não só postados no blog) que mais fazem a diferença e animam o blogueiro a seguir com essa ideia que às vezes beira a escravidão.

Para quem não acompanha desde o início a brincadeira, segue abaixo uma lista com12 postagens, uma de cada mês, e que estão entre as mais lidas e/ou comentadas do blog, além de figurarem entre as favoritas do autor.

- Um carinho na terrinha (31 de março)
- Saudade crônica (23 de abril)
- Manias, meras manias (6 de maio)
- O dia em que me revoltei (16 de junho)
- Meu pequeno grande amigo (5 de agosto)
- Argumentos encalhados (21 de setembro)
- As roupas caseiras (2 de outubro)
- Eis o verão (4 de novembro)
- Contar histórias (13 de dezembro)
- Expectativas pra quê? (27 de janeiro)
- O silêncio na amizade (25 de fevereiro)