segunda-feira, 27 de junho de 2011

Terapia da fofoca

Estou convencido de que minha vizinha elevou a fofoca ao mais puro estado de entretenimento. E com ela descobri que a fofoca generalista e impessoal tem lá sua graça, afinal.

Essa jovem senhora de 60 e poucos anos e eu fofocamos quase que diariamente, geralmente antes, durante e na saída do elevador. Como ela desce alguns andares abaixo, chego a ficar segurando a porta por alguns minutos, enquanto o papo não se esgota. E nunca citamos um nome sequer.

Hoje, por exemplo, falamos sobre um vizinho que fez a mudança pelas escadas e danificou as paredes com a quina de algum móvel. Não sabendo quem era o tal vizinho, criticamos genericamente os vizinhos que se mudam sem os devidos cuidados, estejam eles de chegada ou de saída. E sem ofender ninguém, nem mesmo os bons costumes.

Já desabafamos contra todos os vizinhos sem nunca ter criticado um que fosse, por não saber de quem estamos falando. É o que atira bitucas de cigarro, o que carrega o lixo sempre depois do caminhão passar, o que abre as correspondências deixadas sobre o balcão do hall de entrada. Boas deixas não faltam. Podemos fofocar até sobre eu mesmo, sem que a vizinha saiba de quem estamos falando.

Às vezes minha vizinha e eu nos encontramos no portão, às vezes ela está regando as flores. Encontro-a com a freqüência que encontro a todos os outros moradores somados. Acho que ela passa o dia analisando o cotidiano do prédio, a quem cuida como um filho.

Confesso que em alguns dias a maior interação social que experimento são os 10 minutos de fofocas com essa senhora simpática e indiscreta. A fofoca que não se interessa pela vida dos outros é uma fofoca simplesmente pelo prazer da fofoca. Uma fofoca terapêutica.

São sempre elogiáveis as relações superficiais da vida.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Jazz na sexta

n. 4 – Freedom, de Charles Mingus

A quarta edição do Jazz na Sexta traz o jazzista preferido deste blogueiro (que se já disse o mesmo sobre outro, mentiu): o baixista e compositor Charles Mingus. O tão genial quanto perturbador Charles Mingus, e sua banda igualmente fantástica, com Charlie Mariano no sax e Dannie Richmond na bateria (dois nomes que não figuram entre os graaaandes do jazz, mas que simplesmente deveriam).

Ninguém que justifica minimamente sua passagem por esta vida deve ficar indiferente ao som de Mingus. É um exagero, óbvio, mas necessário para ilustrar o quanto admiro esse cara, de quem já devorei a não-tão-bem-escrita autobiografia.

Mingus já esteve aqui no blog antes, é bom lembrar. Desta vez, a música qe compartilho com os amigos leitores é outra: Freedom, que fecha o álbum intitulado Mingus Mingus Mingus.

A peculiaridade deste som é o coral que abre a música, cantando duas belas estrofes, que são seguidas por instrumental realmente empolgante. Vale ouvir e depois ouvir de novo. As noites de inverno estão aí pra isso.

Charles Mingus - Freedom

segunda-feira, 20 de junho de 2011

5 ou 6 desejos para o inverno

21 de junho. Que o inverno, enfim, seja bem-vindo, e que proporcione dias e noites inesquecíveis para nossas retinas e nossos afetos.

Que meus gatos durmam suas 18 horas diárias ao redor do fogão ou aninhados nas roupas que conseguirem puxar do roupeiro, enquanto penso neles a 180 km de distância.

Que as mulheres fiquem cada vez mais belas e únicas na estação que melhor favorece os estilos mais diversos.

Que os donos de bar sejam complacentes e não encerrem mais cedo o expediente em nossos escritórios em pleno início da reunião.

Que a neve dê as caras como em seus anos mais eloqüentes, nem que seja por um dia apenas, pois quero tirar uma foto.

Que vá embora deixando saudades, nenhum dia antes de 22 de setembro.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Viver com açúcar

O tempo nos torna menos felizes ou apenas mais questionadores da felicidade? Tudo o que faço parece ser pela ilusão de reviver. Estou sempre querendo voltar ao que em determinado tempo me fez mais feliz.

Em tudo o que faço, acabo reencontrando algum vínculo com as boas lembranças, que afinal são boa parte do que temos para continuar a vida. Boas lembranças do passado e boas idéias para o futuro, eis o que nos move.

Posso sentar para escrever numa noite fria sem ter nada a dizer, mas preciso reviver as frias noites em que sentei para escrever tendo algo a dizer. E para isso ouço as mesmas músicas, deixo ao meu lado os mesmos objetos, a mesma caneca de café, faço do presente um cenário para representar o que já vivi.

Passo por uma locadora de vídeo-games e invariavelmente enxergo a mim mesmo com 12 anos, passando as tardes cultivando o primeiro vício da vida. Penso que deveria comprar um vídeo-game, reviver mais essa felicidade. A idéia só sai da cabeça quando lembro que as tardes já não são mais livres, assim como as manhãs, as noites, as madrugadas. Nos consumimos facilmente.

Em um supermercado, tudo me lembra a infância, principalmente os pães de mel que minha vó comia e sempre me dava um. Não sei passar indiferente pelo pão de mel na prateleira.

Penso onde estaria hoje a garota do primeiro beijo. Acho que só por nunca mais tê-la visto é que a lembrança se faz tão boa. O passar dos anos vai mitificando as pessoas que se ausentam da nossa vida e tornando-as cada vez melhores, conforme não as encontremos de fato.

Não faltam exemplos do quanto revivo, de fato ou no pensamento. Termino parafraseando Verissimo (o Luis Fernando), que certa vez disse que ser avô é o mesmo que ser pai, só que com açúcar. Reviver é como viver. Mas com um pouco mais de açúcar.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Novidades

Enquanto uma nova crônica imprescindível para o duvidoso futuro da humanidade não é publicada, este blogueiro aproveita para alertar os amigos leitores das novidades da casa.

A frase que abre o blog, no topo da página, por exemplo. Mudou. Sai o “Andreinews está de volta...” que, mais de um ano depois, já estava ficando um pouco defasado, e entra uma bela citação de Paulo Mendes Campos, retirada de uma entrevista dada ao Pasquim.

Na barra lateral, apresentamos os textos mais lidos e comentados desde que este blog entrou no ar, e os comentários mais recentes deixados pelos visitantes, sejam eles sócios ou não.

Finalmente, também na barra lateral, o registro de alguns momentos da breve e saudosa produção audiovisual no Portal3, minha primeira segunda casa. São vídeos bem legais (eu acho), que foram muito divertidos de fazer e me deixam muitas boas lembranças do ano de 2009.

E tudo isso de graça.

sábado, 11 de junho de 2011

Aos casais dessa minha vida


Feliz Dia dos Namorados, casais dessa minha vida!

Aos meus amigos, que, sem exceção, merecem os parabéns pelas namoradas que escolheram. E, principalmente, às namoradas dos meus amigos, que sem ressentimentos dividem com este inconveniente cronista a companhia de seus amados nos momentos em que a boêmia - tão alheia ao romantismo - se faz o mal necessário de nossas existências.

Queridos amigos de vidas compartilhadas. Que neste dia 12 de junho, o contrato de felicidade seja renovado por outros 364 dias. Com opção de renovação eterna, sem multa rescisória.

Jazz na sexta


n. 3 - So What, de Miles Davis

O Jazz na sexta desta semana, excepcionalmente postado no sábado, traz o gênio Miles Davis. Compositor que por várias vezes revolucionou o jazz, sendo o criador e principal difusor de novas vertentes, como o cool e o fusion, é também um trompetista de melodias incríveis.

Miles foi o primeiro jazzista que aprendi a gostar, lá pelos idos de 2004, através do algum Live Around The World, fantástico, principalmente para alguém que só ouvia rock. A guitarra do Mike Stern e o baixo de Daryl Jones (hoje nos Stones) foram uma boa forma de transição de uma fase roqueira para outra jazzística deste blogueiro.

Mas o que temos aqui neste post é Miles em sua melhor fase, e em melhor companhia. Na relaxante So What (algo como "e daí?"), do clássico Kind Of Blue (1959), o álbum de jazz mais vendido da história, dão o ar da graça músicos como o pianista Bill Evans e os saxofonistas Cannonball Adderley e John Coltrane.

Contemple a vida escutando os solos de So What.

Miles Davis - So What

terça-feira, 7 de junho de 2011

O dia ruim

Cadê a felicidade que estava aqui? Que tristeza foi aquela que me abateu ontem e, sem avisar, chorando se foi? É incrível como o nosso estado de espírito pode variar tanto de um dia para o outro, quando não da noite para o dia.

Creio que só pode ser pela coexistência em nossa vida, o tempo todo, de todos os elementos do drama e da comédia. Nunca faltam motivos para estarmos afundando em melancolia ou em radiante alegria. Somos reféns da memória curta e de uma tendência ao sensacionalismo.

Fato é que não costumamos viver um dia ruim como apenas um dia ruim. O dia ruim nos dá impressão de uma vida ruim. Alguma vez tudo, tudo mesmo, esteve errado? Claro que não. Mas vá se dar conta disso nas piores jornadas diárias.

Sabendo que não haverá dia em que um grande problema destrua tudo o que já nos fez e nos faz felizes, por que sucumbimos às vezes e temos tantas noites mal-dormidas? Noites em que, não bastando nosso infortúnio, avaliar como o mundo tem sido ingrato com tanta gente? Dá vontade de voltar para o útero.

Por isso que é imprescindível saber conviver com o dia em que nada deu certo. Evitar querer, justo neste dia avaliar, todo o resto que nos cerca, pois o mau humor a tudo distorce. Se estamos bem de saúde, se as pessoas que amamos estão bem e preocupadas conosco, se não nos falta algo de muito necessário para levar a vida, um dia ruim não pode ser nada além de um dia ruim.

Enquanto as respostas forem positivas, como normalmente são, vamos conviver, sem traumas, com o dia ruim.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Jazz na sexta


n.2 - Epistrophy, de Thelonious Monk

A segunda edição do nosso já tradicional Jazz na Sexta traz a finíssima Epistrophy, do pianista Thelonious Monk, um dos primeiros ídolos jazzistas deste blogueiro. Verdade que é uma composição em parceria com o bom baterista Kenny Clarke, mas isso é detalhe.

Monk é um dos mais geniais compositores e nem precisa que coloquemos o óbvio complemento “da história do jazz”. Independe de gênero ou época para estar entre os maiores. E, advinhem só: era um excêntrico. Gostava, por exemplo, de abandonar o piano em seus shows para dançar ao som da banda ou simplesmente ficar girando no mesmo lugar, como se estivesse hipnotizado. Daí pra pior.

Menos mal que a excentricidade do Thelonious, que tem um belo nome, diga-se de passagem - é proporcional à criatividade e originalidade de cada música que ele deixou. E isso não sou eu quem diz, mas gente que entende, avalizada. Eu só absorvo e formo minhas frases.

Em Monk, cada nota soa racionalmente escolhida e tocada. Por trás da aparente estranheza das melodias, suas composições são coerentes e lógicas, revelando uma combinação do jazz tradicional, do swing e do blues...” escreveu Carlos Calado, no livro-CD sobre Monk da coleção da Folha de S. Paulo.

Para este post, escolhi Epistrophy, de 1942, e não Round Midnight – a mais bela e que já postei aqui –, pela versão histórica que todos vão poder conhecer.

Trata-se de um show em que Monk divide o palco com o grande saxofonista – principiante à época - John Coltrane, no Carnegie Hall, em Nova York, e cujo registro em áudio só foi aparecer quase 40 anos depois, encontrado em algum porão da vida de alguém.


Thelonious Monk - Epistrophy

terça-feira, 31 de maio de 2011

Bons momentos com Woody Allen

Tenho folheado alguns livros que há tempos não viam qualquer espécie de luz. Bom para dar uma oxigenada, tanto nos livros quanto na memória. E quando fui reler os trechos que havia sublinhado do ótimo Que Loucura!, do Woody Allen, achei que iria enfartar de tanto rir. Compartilho abaixo alguns deles:

...lembro-me de ter olhado o relógio. Eram precisamente 4h15 da manhã. Tenho certeza disto porque nosso relógio está parado há 21 anos nesta hora.

Eu e minha filha o levamos à ópera em Milão. No meio do segundo ato, Needleman debruçou-se no balcão do camarote e caiu no poço da orquestra. Orgulhoso demais para admitir que tinha sido um acidente, passou a ir todas as noites na ópera e a cair lá de cima.

Quando morreu, Needleman estava, como sempre, trabalhando em diversos projetos. Um deles era a criação de uma nova Ética, baseada em sua teoria de que ‘os bons costumes são não apenas mais morais, como podem ser praticados por telefone’”.

E onde fica a ciência quando alguém lhe propõe os eternos mistérios, tais como: De onde se originou o cosmos? (O próprio, não o time de futebol.) Há quanto tempo existe? A matéria se iniciou com uma explosão ou por ordem de Deus? Se a segunda hipótese é verdadeira, por que não começou Ele o serviço duas semanas antes, ainda a tempo de curtir o verão?

O Dr. Brackish Menzies, que trabalha no Observatório de Monte Wilson, ou está em observação no Hospício de Monte Wilson (sua letra não é muito legível), afirma que, se tais seres (extraterrestres) viajassem à velocidade da luz, levariam milhões de anos para chegar à Terra, e que, a julgar pela má qualidade das peças atualmente em cartaz , tal expedição dificilmente valeria a pena.”

domingo, 29 de maio de 2011

Minha alma gêmea (lê romances pornográficos)

Livros catados pelos sebos da vida sempre reservam alguma surpresa. Além de comprar obras de valor inestimável por cinco ou dez pilas, levamos de brinde uma que outra maravilha rabiscada pelos donos anteriores.

Já há algum tempo, arrematei O Muro, de Jean Paul Sartre, em um sebo de São Leopoldo. Na folha de rosto, a pequena Sandra – criança, como a letra denuncia - devia estar brincando de completar títulos de livro. Escreveu na folha de rosto: “do meu jardim”. Na última página, achando incompletos os dados sobre o autor, Sandra acrescenta lindamente ao lado do ano de 1980(!): “omde acomteseu a guerra mundial”. Fico imaginando o que a pequena Sandra, alfabetizada a obras existencialistas, poderia estar fazendo hoje em dia.


Os leitores gostam de enriquecer os livros legando suas opiniões, impressões, devaneios para a posteridade. No meu Bom dia para os defuntos, de Manuel Scorza, um leitor sublinhou a frase “Deus dava de ombros desdenhoso”, e arriscou uma piada na margem: “dar de ombros divino”. Socializando, na última página este blogueiro expõe tudo aquilo que pensou sobre o livro: “o capítulo 9 é sensacional”. Um dia alguém há de concordar ou discordar.

Finalmente, o melhor exemplo disso tudo encontrei não em um sebo, mas num exemplar retirado na biblioteca da faculdade. Era A Casa dos Budas Ditosos, pornografia disfarçada do baiano João Ubaldo Ribeiro. Lá pelas tantas do romance, ao lado de uma passagem realmente engraçada, a leitora anota assim: “se você morreu de rir com esse parágrafo, é minha alma gêmea”. E assina embaixo um nome que já esqueci.

Como eu havia morrido de rir com aquele parágrafo, descobri não apenas que almas gêmeas existem, mas também que eu tinha a minha. Não é lindo isso? Quantas risadas estamos deixando de dar juntos, minha alma gêmea e eu? Foi pelo benefício da dúvida que preferi não responder.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Jazz na sexta

Nesta sessão que inicia hoje, este blogueiro emocionado traz toda semana um jazzinho, com breves comentários. A intenção é brindar os amigos apreciadores e, quiçá, atrair novos ouvintes para o gênero.

n.1 - Groovin’ High, de Dizzy Gillespie

Todo clássico do jazz (os standards) já foi regravado à exaustão, por incontáveis músicos, ligados ao gênero ou não. Comparando com o rock, é como se toda banda já tivesse feito uma releitura de Stairway To Heaven ou Smoke On The Water e lançado em álbum.

Groovin’ High, música que dá início a esta sessão, foi composta pelo trompetista Dizzy Gillespie, as bochechas infladas mais famosas e virtuosas do jazz, em 1945, iníco da era bebop, movimento mais legal em mais de um século de reviravoltas de New Orleans ao contemporâneo.

Em uma busca rápida pelo meu HD via Windows Media Player, encontro cinco versões de Groovin’. Trata-se de um jazz rápido e empolgante, que parece feito para trilha sonora de comédia pastelão. Todo vídeo de humor poderia ter um jazz de Charlie Parker (em breve) ou Dizzy Gillespie como pano de fundo.

Abaixo, duas versões deste som. A primeira, com o próprio Dizzy, a segunda, a preferida deste blogueiro, com o saxofonista Lou Donaldson.

Groovin' High - Dizzy Gillespie

Groovin' High - Lou Donaldson

terça-feira, 24 de maio de 2011

Os males da coluna diária

Podem cobrar futuramente, mas duvido que este blogueiro venha um dia a se aventurar no ofício de colunista diário, seja de jornal, site ou blog mesmo.

Sem entrar nos méritos da inspiração e do talento, que também podem faltar a este cronista, o requisito que certamente não cumpro é o desapego pelos meus escritos.

Sou muito apegado ao que escrevo. Lembro de cada título, de cada argumento, de cada frase que já tenha agradado a alguém, de cada comentário Se produzisse 365 textos por ano, como daria atenção a cada um deles? Crônicas são filhos que coloco no mundo. Sou a mãe, o leitor assume a paternidade.

Alguns textos são produtos de semanas de pensamentos, de inúmeras tentativas e erros, e até de desistência temporária, até que retorne a ele após aquela sacada que faltava e que surge inesperadamente. É um ritual dramático e às vezes desgastante (para este que vos escreve. Nada de generalizar).

Todo esse envolvimento faz do texto uma experiência difícil de imaginar enquanto exercício diário sem a impressão de que estaria banalizando o que mais gosto de fazer.

Paulo Sant’Ana, cronista idolatrado por este aprendiz, publicou 16 mil colunas em Zero Hora. As melhores, as mais árduas, para não condená-las à efemeridade da página de jornal, reuniu em três livros. Por três vezes, voltou do sótão com uma caixa cheia, carregando só o que o tempo não estragou. É um apegado ao texto, mas que ocupa os lapsos de inspiração com mais textos, alguns descartáveis. É cronista refém da coluna diária.

O colunista diário tem que ter muito a dizer. Dizendo muito, esquece muito o que já disse. Prefiro esquecer pouco. E não tenho tanta coisa assim a dizer.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Viver de improviso

Gosto demais de não saber o que quero da vida. Que sensação, amigos. Sempre que ela me assalta, não exito em elogiá-la. E durmo melhor depois.

Quem gosta de viver em cima de muitas conclusões, não pode perder de vista que a vida é, acima de tudo, uma invenção. Um improviso, como já ouvi dizer o octogenário poeta Ferreira Gullar, com quem compartilho a crença no poder do acaso que move o mundo.

O maior privilégio que se pode ter é o de inventar a si mesmo, e nisso pode estar nossa certeza de felicidade. Sermos nosso próprio criador e criatura. E a melhor forma de improvisar a vida é impondo a ela o mínimo de delimitações, oferecendo o máximo de opções que se pode prospectar numa noite de quase inverno.

Quanto a mim, confesso que vivo de puro improviso. Não sei por que sou e até quando quero ser jornalista, se um dia escreverei um livro, que livro será esse, quando vou querer ter filhos, onde irei criá-los, se irei aprender francês ou gaita-de-boca. Talvez chegue aos 30 querendo ser professor, aos 40 um fotógrafo, aos 50 um eremita. O certo é que hoje há infinitas possibilidades, e tê-las comigo, jogar com elas, pra lá e pra cá, é inventar a vida.

Somos aquilo que fomos capazes de criar. Somos o rascunho sem direito à arte final. Mas com inúmeras folhas em branco.

terça-feira, 17 de maio de 2011

30 palavras-chave para gostar do frio

Para acrescentar, questionar ou remover a gosto:

Cobertor; Café; Blues; Sopa; Pinhão; Neve; Livro; Filme; Touca; Luva, Manta; Lareira; Chocolate quente; Serra; Neblina (a.k.a cerração); Abraço; Cor cinza; Pratos quentes; Jazz; Cama; Amanhecer; Sofá; Pele; Filosofia; Coisas de lã; Bancos de praça; Solzinho; Fogão a lenha; Turistas lindas

domingo, 15 de maio de 2011

Saldo do Gauchão

Com os dois clubes tendo sido eliminados da Libertadores de forma decepcionante, o menos provável era que no confronto direto fosse revelada uma superioridade muito grande de um dos lados. E o 3X2 para o Grêmio no Beira-Rio, e o 3x2 para o Inter no Olímpico, denotam esse equilíbrio total e justificado.

Parabéns aos colorados. Mas vamos ao Grêmio:

O Grêmio perdeu nos pênaltis, após sete rodadas de cobranças, mas redescobriu nestas finais que tem elementos para formar um time competitivo para o Brasileiro. Sem badalação, mas competitivo, como exige um campeonato de pontos corridos.

Time que pode ter Vilson na zaga ao lado de Rodolfo, que tem um grande volante (Rochemback) e dois meias que se completam (Douglas e Lúcio), e, finalmente, um imprescindível atacante de velocidade (Leandro). E em pouco tempo, estarão de volta Gabriel e André Lima, dois bons reforços em relação ao time das finais. E Escudero pode ganhar novas chances, assim como Fernando.

É preciso reforçar, sem dúvidas. Investir em um bom lateral-esquerdo, pelo menos mais um atacante de área e um reserva para o Douglas. Mas não há motivos para crise no Olímpico. E domingo começa tudo de novo.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Preguiça

"Na minha próxima vida, quero ser um gato. Dormir 20 horas por dia e esperar ser alimentado. Sentar por aí lambendo meu cu. Os humanos são desgraçados demais, irados demais, obcecados demais." (Charles Bukowski)

Seria meu gato o Bukowski reencarnado?

domingo, 8 de maio de 2011

Sobre o Gre-Nal

No post de 16 de fevereiro, este blogueiro escalava o Grêmio que considerava ideal para a Libertadores.

Curiosamente, o time tinha a dupla de zaga Vilson e Rodolfo, que finalmente foi a campo no Gre-Nal de ontem, e o seguinte meio-de-campo, que, perdõem a redundância, finalmente foi a campo no Gre-Nal de ontem: Rochemback, Fernando, Douglas e Escudero.

Alguém tem dúvidas de que o técnico Renato leu, ainda que com atraso, o referido post antes de escalar o time que jogou o Gre-Nal?

Brincadeira à parte, é apenas óbvio que um time que joga com Vilson no lugar de Rafa Marques e Fernando no lugar de Adilson tem muito mais chances de ganhar um jogo. Só precisou o acaso de um desconforto muscular e uma suspensão para essa verdade aparecer.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Homenagens

Eis que domingo é o Dia das Mães. Data tão bonita, que nem ficamos tristes por ela cair sempre no domingo. Quem não tem prazer em dar à sua mãe um belo presente? Pode-se questionar o cunho comercial do dia dos namorados, do natal, da páscoa. Mas o Dia das Mães é dia de dar presente e ninguém discute.

Dia das Mães, portanto, e eu adoraria poder escrever aqui uma bela homenagem para a minha, ou a todas. Mas de que forma, se sou assumidamente um péssimo redator de homenagens? Talvez só a poesia me seja um texto tão estranho quanto a reverência.

Desobri isso quando minha própria progenitora, repetidas vezes, pedia-me que escrevesse homenagens em determinadas situações: para pôr no jornal, para ser lida em voz alta, essas coisas. Mas nem com a maior boa vontade - que me é característica em assuntos maternos - saiu uma única palavra.

Sou bloqueado para homenagens, assim como não sei dar feliz aniversário sem recorrer aos eternos clichês. E se sou eu o aniversariante, nada de útil encontro para dizer além de agradecer. Não sei se há relação entre essa três coisas, mas parece haver.

Homenagens me deixam tímido. Assim como Manoel de Barros diz que é fraco para elogios, eu digo que sou fraco para elogiar. Vão-se embora as palavras na hora de expressar como uma pessoa é importante pra mim. Talvez porque é fácil ser superficial, e ninguém quer soar superficial em sua grande ode.

Preciso com urgência de uma oficina criativa. Nem parece que trabalhei por seis meses na Assembléia Legislativa, assistindo diariamente a deputados homenageando a quase todos os vivos e mortos imagináveis.

Não vá seguir o amigo leitor o mau exemplo deste amigo. Elogie gratuitamente, digam às suas mães o quanto elas são importantes para vocês, por mais que elas já saibam. Como minha também sabe, porque elas sempre sabem. Mesmo sem ler nada a respeito.

domingo, 1 de maio de 2011

Amigos e livros

Faço com os meus amigos o mesmo que com os meus livros. Sei onde posso encontrá-los, mas raramente os procuro. A boa sacada não é minha, naturalmente. É do pensador Ralph Waldo Emerson, um cara de boas sacadas que viveu no século XIX e que, se não atribuísse tanta coisa ao poder divino, seria ainda mais recomendável. Ainda assim, vale a pena ler suas idéias sobre amor, intelecto, autoconfiança e amizade, todos temas e títulos dos seus ensaios.

Sobre amigos e livros, a analogia é perfeita. Pouco folheio meus livros já lidos, mas se me falta algum, não paro de olhar para a estante, sabendo que está incompleta, que um espaço está vazio. Com os amigos, dá-se o mesmo. Não costumo ligar, não costumo visitar, não costumo puxar conversa no MSN. Creio que sou um fiasco.

O importante é o amigo saber que não é por falta de interesse que deixo de procurá-lo. Pelo contrário. Como todos sabem, amo demais meus amigos. É para não me sentir banal que modero o convívio. É para preservar do dia-a-dia, que torna tudo enjoativo, minha voz, minhas palavras e até meu silêncio. É por confiar que não serei esquecido, mesmo que ausente, e talvez seja até melhor lembrado assim. E para ser procurado, também.

Outro componente, não tão poético, é a falta de tempo, de oportunidades de reencontro, que a vida impinge. As amizades praticamente rivalizam como todo o resto da nossa agenda. Estamos sempre mudando, e as mudanças tendem normalmente a separar os amigos, raramente a juntá-los. Seria esse o único lado ruim de mudar? Difícil afirmar, uma vez que a mudança também traz novos companheiros, igualmente necessários.

Finalmente, olhar para a estante de livros faz pensar no tempo que resta para reler todos aqueles que mais me marcaram. Nunca releio, mas sei que sempre há tempo. Além disso, não importa quantos volumes novos irei adicionar, eles estarão sempre lá, bem guardados, assim como os amigos. Para me tornar menos incompleto, e por isso não abro mão deles. Ainda que raramente os procure.